Espiritos do Luar é baseado nas histórias e lendas das tribos Cherokee, Wappo e Karok. Os nomes são inventados e a história em si é ficcionada.
Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011

Espiritos do Luar - Cap 3

Já se tinham passado alguns dias desde a grande caçada e toda a aldeia estava contente pelos seus jovens e descendentes terem sido bem sucedidos. Sashi nesse dia tinha ido com Poonam até ao rio para colherem conchas e pedras para as mães poderem enfeitar os cestos. Estavam em pleno Verão, portanto uma ida até ao rio era sempre bem vinda. Mal chegaram perto da água, Sashi saltou logo para refrescar. Os homens da aldeia estavam à pesca, e normalmente as mulheres deveriam mostrar algum respeito pela sua presença, não fazendo nada de espalhafatuoso, mas Sashi desde nova que era assim e após várias tentativas por parte dos pais para ela parar, tinham percebido que era inútil, portanto as pessoas simplesmente habituaram-se. Poonam, sendo a filha do chefe, achava este comportamento bastante impróprio – apesar de serem melhores amigas desde muito cedo – e detestava quando Sashi fazia este tipo de coisas. Normalmente era bastante tolerante e nada dizia mas naquele dia em particular, estava a irritá-la mais que o costume.

- Sashi, pára lá com isso. – disse num tom relativamente controlado, para mais ninguém ouvir. Poonam detestava cenas e evitava escandalos o máximo possível.

- Que foi? – perguntou Sashi. – Não fiz nada.

- Eles estão a caçar peixe, não achas que fazeres esse barulho todo não afugenta os peixes? – reprimiu Poonam enquanto procurava pedras no fundo do rio.

- Tem calma Poonam, não é assim tão grave. Os peixes voltam logo. – disse Sashi enquanto se levantava da água, espremendo o seu longo cabelo preto.

                Poonam nada disse, continuando à procura de conchas e pedras coloridas. Sashi encolheu os ombros e não fez caso do assunto. Ultimamente Poonam tinha andado estranha e Sashi fazia os possíveis para não levar estas explosões a peito, devia haver problemas em casa ou algo a preocupava e a única maneira de lidar com isso era descarregar em Sashi. No entanto, estas explosões tornaram-se quase diárias após a grande caçada e Sashi desconhecia o porquê. Sem querer, Sashi escorregou numa pedra que tinha alguns limos e para se aguentar, agarrou-se a Poonam. Esta perdeu o equilíbrio e ambas caíram na água. Quando regressaram à superfície, Sashi estava a rir-se como uma perdida, mas Poonam finalmente teve que chegue.

- És impossível Sashi. Não és capaz de levar as coisas a sério! – disse a Sashi, visivelmente chateada.

- Poonam foi sem querer, desiquilibrei-me e…

- Não quero saber! Estou cheia das tuas cenas, estás sempre a desrespeitar a aldeia, não te sabes controlar, fazes as coisas à tua maneira e as pessoas que se habituem porque és assim. Estou farta!

- Que queres dizer com isso? – perguntou Sashi confusa.

- Olha sabes que mais? Não fales mais comigo, preciso de tempo para mim. – disse Poonam, pegando no seu cesto e saindo da água sem dizer mais uma palavra.

                Sashi ficou sentada no rio, com a água pela barriga a ver Poonam afastar-se. Não fazia ideia que Poonam pensava isso dela e muito menos que Sashi a irritava mas o que a magoou mais foi Poonam acusá-la de fazer aquilo de propósito. Ela sempre foi assim e nunca ninguém a tinha impedido de ser assim.

- Não lhe ligues Sashi. – disse uma voz masculina do seu lado esquerdo. Sashi olhou para cima e viu que era Karuk, o irmão de Poonam.

- Pois isso é fácil para ti, vocês são irmãos. Se se chatearem voltam a fazer as pazes eventualmente. Com amizades não é bem assim. – respondeu Sashi, desanimada.

- Deixa-me ajudar-te a levantar. – ofereceu Karuk, esticando a mão. Sashi agarrou-a e levantou-se. – Estou muito admirado contigo sabes?

- Como assim? – perguntou, confusa.

- Sempre foste aquele género de pessoa que nunca leva nada a mal, que acha sempre que vai ficar tudo bem. És sempre a que motiva toda a gente. Estares tu desanimada, não é normal para quem anda a pregar tais sermões. – disse Karuk. Sashi sorriu.

- Estás a falar muito bem hoje. – riu-se ligeiramente.

- Ao menos fez-te rir.

- Pois…

- Não te preocupes, é uma fase. Ela ontem teve uma conversa com o meu pai que não lhe agradou e pronto, está de trombas. Acontece a toda a gente. Ela volta ao normal.

- Espero que tenhas razão.

                Ambos ficaram a sorrir durante algum tempo, até Karuk ser chamado por Adahy.

- Bem tenho de ir. Ficas bem? – perguntou.

- Claro. Isto passa.

- Está bem então. Vemo-nos mais tarde.

                Karuk começou a afastar-se, com a sua lança de pesca na mão enquanto se dirigia para terra, ter com os outros rapazes que estavam anteriormente a pescar. Sashi ficou a apreciá-lo. Não se podia negar que era um homem bastante atraente, de facto. O seu longo cabelo preto andava normalmente solto, excepto quando haviam cerimónias ou quando estava a trabalhar, como era o caso. Hoje trazia-o preso, apenas as pontas que ficavam junto à face estavam puxadas para trás e presas com um nervo dos veados caçados nessa semana.

- Karuk? – chamou Sashi.

- Sim? – disse, enquanto se virava para trás, com o cesto cheio de trutas debaixo do braço.

- Obrigado. – respondeu, sorrindo. Ele sorriu de volta.

- De nada.

 

**

 

                A tarde tinha passado mais lenta do que Sahi estava à espera. Normalmente com Poonam os dias passavam a correr, mas hoje, sem a sua presença, o dia tinha-se tornado melancólico e aborrecido. Quando chegou a casa com o cesto cheio de amoras para o jantar, Rani, sua avó, percebeu logo que algo se tinha passado. Sashi sentou-se no chão, por cima de uma manta de folhas, começando a lavar as amoras num cesto que tinha com um pouco de água.

- Diz lá, o que se passou? – perguntou a avó.

- Não sei do que falas. – respondeu Sashi, tentando desviar o assunto.

- Ora Sashi, ambas sabemos do que estou a falar. Anda lá, desembucha. – Sashi suspirou e permaneceu em silêncio vários minutos antes de falar.

- A Poonam está chateada comigo. – disse por fim.

- Ela disse porquê?

- Bem, por eu ser…eu. – respondeu Sashi enquanto separava as folhas das amoras e as passava por água.

- Hum. – disse Rani. Sashi olhou para a avó. Ela sabia que a avó tinha mais para dizer mas fazia sempre questão que fosse a neta a fazer-lhe a pergunta.

- Que foi? Eu sei que tens mais para dizer.

- Talvez não seja o facto de tu seres tu, mas ela já não ser quem era.

                Sashi ficou a pensar naquilo. De facto ultimamente Poonam tinha andado estranha, andava mais calada e mais irritada. Era de facto pouco normal mas toda as pessoas têm a sua fase má, por isso é que Sashi nunca fez muito caso do assunto.

- Há alguma coisa que me estejas a esconder vó? – perguntou Sashi, olhando a avó directamente nos olhos. A avó correspondeu o olhar e sorriu.

- És tal e qual o teu pai. Nada te escapa.

- Vó, diz-me. Por favor.

- Hoje à noite vais ficar a saber querida. – respondeu a avó, voltando a concentrar-se na costura dos factos de Inverno.

- Que queres dizer com isso?

- Logo saberás.

                Sashi não insistiu mais. Sabia que quando a avó não podia falar sobre o assunto ou não queria, não havia nada que lhe pudesse arrancar as palavras da boca.

                Depois do jantar, Sashi só conseguia pensar naquilo que a avó lhe tinha dito. Não se atrevia a perguntar á mãe e muito menos ao pai portanto só podia esperar. No entanto reparou que os pais estavam com uma troca de olhares no mínimo suspeita e de vez em quando apanhavam-nos a olhar para ela. Estava a estranhar imenso mas tentou não fazer caso. Passado um pouco, Mehul levantou-se e saiu da tenda. Passado alguns segundos voltou a entrar.

- Está na hora. – disse.

- Para quê? – perguntou Sashi, não podendo conter mais a sua curiosidade.

- Tuksui quer anunciar uma coisa. Vamos, não podemos chegar tarde. – respondeu simplesmente.

                Assim então fizeram, saíram todos da tenda em direcção á tenda do chefe Tuksui. Estava lá a aldeia em peso, todos sentados em redor da entrada da tenda, alguns já de pé. Em frente á casa de Tuksui estava uma fogueira acesa. Era costume em frente da tenda do chefe, no centro da aldeia haver uma fogueira. Era normalmente usada para os grandes jantares, para a aldeia inteira. Sashi sentou-se na ultima fila da multidão, não gostava de ficar sobre a luz da fogueira, principalmente com tanta gente. Outra das razões era recear que Poonam a visse e não queria mais problemas.

                Tuksui finalmente saiu da sua tenda com o pai de Sashi atrás dele. Mehul tinha entrado pelas traseiras, para que ninguém o visse. Para o pai fazer parte do anúncio então era porque era relativamente importante. Toda a aldeia calou-se e o único som que se ouvia era o crepitar da madeira enquanto ardia lentamente na fogueira. Tuksui estava com as suas roupas de cerimónia, com o seu grande chapéu de penas e contas. Atrás dele, ligeiramente escondidos pela sombra, estava Karuk e Poonam. Karuk parecia relaxado, como se nada fosse, mas Poonam parecia estar perturbada.

- Meus filhos, chamei-vos hoje aqui porque tenho uma importante noticia para vos dar. – disse Tuksui. Ninguém respondeu, portanto Tuksui continuou. – Como sabem, em breve terei que resignar o meu posto como vosso chefe, para dar lugar a alguém mais novo e com uma mente fresca. E como já todos sabem, esse sucessor será o meu filho Karuk. – Tuksui fez um gesto com a mão em direcção ao seu filho. Karuk assentiu com a cabeça e o pai prosseguiu. – E como todos sabemos, está a chegar a altura de juntar famílias. A época das folhas castanhas está a chegar e essa é a melhor altura para juntar as jovens e os homens da nossa aldeia. Dito isto, tenho muito gosto em anunciar que a minha filha, Poonam, está então prometida a casar com Adahy, filho de Ahmik e da sua mulher Koko.

                Houve alguma agitação entre as pessoas na aldeia mas o maior choque foi o de Sashi. Agora percebia porque Poonam andava tão estranha. Ela não suportava a ideia de casar tão nova e muito menos com um amigo tão próximo do irmão. Já tinham tido muitas conversas sobre o assunto, antes de se chatearem, e Poonam sempre disse que gostava de casar com alguém que de facto gostasse, e que a tradição de serem os pais a decidir com quem casar era estúpida.

                Sashi olhou para Poonam e conseguiu ver o sofrimento daquele comunicado nos olhos dela. Ela estava triste mas pior que isso, tinha perdido o seu espirito. Adahy levantou-se da multidão e foi de encontro com Poonam. Ela sorriu-lhe mas foi um sorriso forçado, apagado. Tuksui continuou.

- E, sendo assim, aproveito para anunciar também quem é a jovem mulher que terá o prazer de casar com o meu filho Karuk.

                Imediatamente quase todas as raparigas velhas o suficiente para casar colocaram um sorriso na cara e começaram a sentar-se mais direitas e a ajeitar os seus longos cabelos. Sashi foi das poucas que permaneceu na mesma. Já nem estava a prestar atenção ao que o chefe dizia, estava demasiado preocupada com Poonam para dar importância a quem casaria com Karuk.

- Sashi, filha de Mehul e de Jayce.

                Sashi saiu do seu transe e olhou para cima, sem saber como reagir.

publicado por Suky ♥ às 22:17
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5 Moonlights:
De Andrusca ღ a 2 de Setembro de 2011 às 23:07
Olha, tens um erro:
"- Não lhe ligues Sashi. – disse uma voz masculina do seu lado esquerdo. Sashi olhou para cima e viu que era Karuk, o irmão de Sashi." é o irmão de Poonam, não é?
Ahah, por acaso quando foi essa cena da Sashi e do Karuk pensei que eles ficavam bem juntos, mas não imaginava que fossem já casar xD
Tadinha da Poonam :s


De Andrusca ღ a 3 de Setembro de 2011 às 12:00
De nada xD
Ao menos dá para se ver que já estou a ir aos sítios com os nomes das personagens xD


De Filippa a 4 de Setembro de 2011 às 20:14
ainda me confundo um pouco com os nomes mas com os capitulos eu vou lá xDD
a história está interessante pois nunca se sabe o que vai acontecer, estou completamente na expectativa :)
ai Suky estou mesmo interessada :D
até já comentei isso no twitter haha xDD
beijinhos *


De Cate J. a 5 de Setembro de 2011 às 01:40
:OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO *choque*

amei!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!1
não te preocupes que tens poucos e bons e depois com o tempo vão aparecendo mais. Comigo foi assim. : )
Coitada da Poonam :c
adorei *-*
beijinhos


De marie-claire a 5 de Setembro de 2011 às 13:57
Gostei, coitada da Poonam.
E agora o que vai achar Sashi de ter de casar com o gato do Karuk? xD
beijinhos ^^


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