Espiritos do Luar é baseado nas histórias e lendas das tribos Cherokee, Wappo e Karok. Os nomes são inventados e a história em si é ficcionada.
Domingo, 11 de Setembro de 2011

Espiritos do Luar - Cap 5

                Já se tinham passado 8 dias desde que os lobos tinham mudado de casa. Agora estavam perto do rio, onde podiam caçar sem grandes problemas ou deslocações. Dormiam dentro de uma gruta que havia ali perto, não era muito grande mas chegava para a familia toda. Para lá chegar, tinham de entrar na floresta alguns metros e depois voltar para trás. A gruta ficava na escarpa de uma pequena falésia junto do rio, ficava completamente isolada do resto da floresta, e poucos animais ou pessoas sabiam da sua existência. Tinham que descer por um caminho estreito que contornava a falésia até à entrada da gruta. Era o sitio perfeito para proteger as suas crias e abrigarem-se tanto do calor como do frio.

                Há três dias que Sashi conseguia escapar das suas tarefas para procurar os lobos e no dia anterior tinha finalmente encontrado o seu novo refugio. Ficava do outro lado do rio, empoleirada num dos ramos grossos de uma árvore, para não incomodar os lobos. Hoje a mãe tinha-lhe pedido para ir buscar umas folhas de carvalho venenoso. As suas folhas eram usadas para tintas usadas nas roupas e nos cestos. Tinham que ser manuseadas com cuidado pois causavam bolhas horriveis na pele, que causam comichão e consequentemente feridas. Como os carvalhos ficavam longe, então Sashi aproveitou e desviou o seu percurso para ir ver os lobos. As crias já deviam ter um mês, talvez dois, pois já andavam fora da toca mas ainda eram muito pequenas.

                Os lobos sabiam que ela estava ali, a observá-los. Mas não se importavam. Tinham percebido que ela não fazia mal, que só estava curiosa, portanto deixavam-na em paz. No entanto, não iriam tolerar que ela se aproximasse, pelo menos por enquanto. A própria Sashi ainda não se sentia segura o suficiente para isso, era demasiado cedo. Talvez daí a uma ou duas semanas já pudesse arriscar em aproximar-se mais deles. Ficou alguns minutos a vê-los, uns estavam a dormir, os pequenos estavam na brincadeira e alguns não estavam á vista. Talvez tivessem ido patrulhar a zona, para terem a certeza que não eram incomodados. Apesar de o local ser bom, continuavam em risco, principalmente as crias. Ali, á beira do rio, haviam várias pedras que saiam da água, formando um labirinto de rochas para a água. Era o sitio perfeito para os ursos caçarem peixe. E o sitio perfeito para terem uma refeição fácil com uma cria distraída. Estavam num lugar melhor, mas não totalmente a salvo.

                No entanto os ursos normalmente não causavam problemas, principalmente já no fim do Verão. Já se tinham abastecido de gordura suficiente para a longa hibernação que se aproximava. Os ursos eram mais perigosos na Primavera, quando estão completamente esfomeados e desesperados por recuperar o peso perdido.

                Começou a fazer-se tarde e Sashi não queria que os pais desconfiassem do que ela andava a fazer. Antes que a mãe desse pela sua falta, desceu do eucalipto, pegou no cesto com folhas de carvalho e voltou para a aldeia. Havia já várias fogueiras acesas, prontas para fazer os jantares e os cães começavam a reunir-se para comerem o que sobrasse. Os cães eram recentes na aldeia, viviam com os humanos a apenas quatro anos. A maioria deles eram cães selvagens que devido a um ferimento, ficaram incapacitados de caçar e portanto lentamente foram-se infiltrando na aldeia, e os humanos foram aceitando-os. Por vezes eram úteis, não só pela questão de fazerem companhia mas sim porque funcionavam como um alarme, no caso de haver algum animal nas redondezas, como um urso ou um leão da montanha. Ou mesmo na presença de outros humanos que não conhecem, membros de outras tribos que poderiam fazer uma emboscada. Serviam também para manterem os cavalos seguros de roubos ou de serem atacados por animais selvagens. Os cavalos não eram muitos e um Achak só merecia um cavalo quando atingisse o seu estatuto como homem. Então, teriam que se deslocar para o vale, até um planalto onde costumavam estar manadas de cavalos selvagens a pastar. Escolheriam o seu cavalo e teriam que o dominar. Só assim é que um Achak tinha direito a um cavalo e a mantê-lo.

                Sashi entrou na sua tenda e entregou o cesto com folhas á mãe. Sentou-se em seguida na manta de folhas, esperando por mais ordens. Estava farta daquele castigo. O pai sabia bem o que lhe ia fazer falta: liberdade. E foi precisamente isso que lhe tirou. A mãe era mais liberal nesse aspecto, sempre foi uma pessoa com mente mais aberta mas nunca se atreveria a desrespeitar a ordem do seu marido.

- Podes ir Sashi. – disse a mãe. Sashi olhou para a mãe, surpresa.

- Como assim posso ir?

- Não preciso de ti. Podes ir ter com as tuas amigas. Talvez falar com Karuk, pedir-lhe desculpa pelo sucedido.

- Mãe, a aldeia toda olha-me de lado e por onde quer que passe, começam a falar. Prefiro ficar dentro de casa… -respondeu Sashi, desanimada.

- Tens de compreender que nunca ninguém fez o que tu fizeste, e muito menos quando se tratava de um casamento com o próximo chefe da aldeia. É normal que as pessoas falem.

- Pois mas não significa que eu tenha que gostar ou de me submeter a tal julgamento. – Jayce sorriu.

- Sempre tiveste opiniões muito próprias Sashi e admiro isso em ti. Mas por vezes temos que aceitar como as coisas são. – disse Jayce.

- Mãe, eu não amo o Karuk. Não faz sentido casar com ele. – respondeu Sashi.

- Filha, ninguém casa por amor. Os pais decidem com quem os filhos devem casar, quer se amem ou não.

- Mas não devia ser assim. As pessoas deviam decidir por elas com quem ficar para o resto da sua vida. Para quê casar se vais ser infeliz para o resto da tua vida? – perguntou Sashi.

- Eu e o teu pai não somos infelizes. – respondeu Jayce.

- Mas isso foi um acaso. De certeza que há muita gente que não é feliz mãe.

- Sim, podes ter razão, mas isso não vai mudar filha. Pelo menos não tão cedo.

- Pois.

                Sashi ficou a ajudar a mãe com as folhas mesmo tendo sido dispensada. Não tinha nada para fazer de qualquer maneira e não queria que o pai a visse e levasse um sermão. Também não queria ser submetida àqueles olhares quando caminhava sozinha pela aldeia. Esperava que aquilo passasse rápido, estava a ficar farta de ser julgada por toda a gente, por ter entrado em pânico. Pouco tempo depois Sashi ouviu alguém chamá-la do lado de fora da tenda. Saiu da tenda para ver quem era; era Poonam.

- Preciso de falar contigo. – disse.

- Pensava que não falavas mais comigo. – respondeu Sashi num tom azedo.

- Sashi, por favor.

                Sashi cedeu. Fechou a entrada da tenda e seguiu Poonam. Ela dirigiu-se para a beira do rio, mas mais acima, perto da pequena cascata que havia ali perto onde normalmente tomavam banho. Era mais calmo e não havia ali tanta gente. Sashi sentou-se numa pedra grande com algum musgo e esperou que Poonam falasse.

- Bem? – disse Sashi ao fim de algum tempo de silêncio.

- Queria pedir-te uma coisa.

- Sim?

- Não fiques mais tempo á espera para casar com Karuk.

- Porquê? – Sashi estava um pouco surpresa e chocada com aquele pedido. Pensava que Poonam tinha vindo para fazerem as pazes.

- O meu pai está bastante chateado com a tua fuga e começa a ficar impaciente com a tua demora em aceitar. Karuk já o tentou acalmar, que havia tempo, mas o meu pai está decidido. Vais ter que casar com Karuk, Sashi. Tens que aceitar isso, tal como eu tive que aceitar casar com Adahy.

                Sashi ficou calada durante uns segundos, a processar a informação. Depois de reflectir olhou para Poonam.

- Não era minha intenção desrespeitar o teu pai ou a tua familia mas não sei se posso aceitar.

- Sashi…o meu pai ficaria furioso se isso acontecesse. Iria vingar-se na tua familia, provavelmente retirar o posto de curandeiro ao teu pai e consequentemente a ti. Talvez mesmo expulsar-te da aldeia, ou expulsar a tua familia toda. Não queres isso pois não?

- Claro que não, mas não acho que fizesse isso. Os nossos pais são amigos, melhores amigos. Não me parece que ele expulsasse o melhor amigo e conselheiro dele da aldeia ou que lhe retirasse o trabalho dele, que é extremamente importante para a aldeia.

- Tu não percebes, pois não? – disse Poonam levantando-se da pedra e voltando para o chão. – És mesmo cabeça dura.

- Não entendo onde queres chegar… - respondeu Sashi, levantando-se também mas permanecendo em cima da rocha. Poonam voltou-se para Sashi, olhando-a nos olhos.

- Ou casas com Karuk, ou o meu pai desterra a tua familia. Escolhe.

                Poonam virou costas e regressou para o aldeamento num passo apressado. Sashi não se moveu. Continuou de pé, a levar com pequenas gotas de água nas pernas, à medida que esta caía da cascata e embatia com violência nas rochas directamente abaixo. Não podia acreditar no que tinha ouvido. Poonam tinha sido basicamente uma mensageira do seu pai. Aquilo não era um conselho, era um aviso. Talvez mesmo pudesse ser considerado uma ameaça. De qualquer forma, tinha que se decidir e rapidamente. E Sashi não sabia o que faria menos danos. Casar e ser infeliz, ou fugir para nunca mais voltar.

publicado por Suky ♥ às 16:18
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