Espiritos do Luar é baseado nas histórias e lendas das tribos Cherokee, Wappo e Karok. Os nomes são inventados e a história em si é ficcionada.
Terça-feira, 6 de Setembro de 2011

Espiritos do Luar - Cap 4

 

                Rani estava ao lado da neta quando Tuksui anunciou quem casaria com o seu filho. Ela percebeu que Sashi não sabia o que fazer, estava petrificada. Passados alguns segundos sem reacção, algumas pessoas olharam para Sashi, à espera que ela fizesse alguma coisa. Rani deu uma pequena cotovelada no braço da neta. Sashi imediatamente acordou do transe temporário em que tinha ficado e olhou para a avó. O seu olhar não era só de espanto e surpresa, mas também havia puro medo.

- Sashi. – chamou Tuksui.

                Sashi olhou para o seu chefe e em seguida para o pai, que estava com um olhar preocupado. Era suposto a filha ter reagido bem, como qualquer rapariga na aldeia reagiria. Sashi, ao ouvir o chefe chamá-la, conseguiu pensar e comandar os seus musculos a funcionar. Levantou-se e começou a caminhar por trás da multidão em direcção a Karuk. Durante todo o caminho, ia a olhar para o chão. Ela sentia os olhares de toda a gente nas suas costas, principalmente das raparigas que ficaram invejosas por ser ela a escolhida. Não conseguia enfrentar os olhares da aldeia, mas acima de tudo não conseguia olhar para Karuk. Eles mal se conheciam, ele era apenas um conhecido, o irmão da melhor amiga dela. Ela sentia que estava tudo mal, isto não era suposto acontecer, não era suposto ser assim. Sashi sentia que era errado. Estava a cerca de dois metros de Karuk. Decidiu olhar para ele. Ele observava-a com alguma preocupação. Era óbvio para ele que não era aquilo que ela queria. Os seus olhos cruzaram-se por duas fracções de segundo mas foi o suficiente. Karuk deu-lhe um ligeiro sinal com a cabeça e Sashi desatou a correr para a floresta. Podia ouvir a aldeia toda em choque, os sons de surpresa e por entre a confusão conseguiu distinguir algumas vozes que a chamavam. Sashi não olhou para trás e não parou de correr até achar que estava longe o suficiente para ninguém a encontrar.

                Assim que abrandou, procurou um sitio onde se pudesse sentar. Encontrou uma árvore cujas raízes eram salientes em alguns sitios. Sentou-se numa dessas raizes, encostando-se ao tronco da árvore. Ali ficou, sem nada fazer, apenas a pensar e a divagar. Talvez não fosse assim tão mau, casar com Karuk. Afinal de contas, ele era querido e simpático, preocupava-se com ela e era atraente. Fazia sentido a curandeira casar com o chefe mas mesmo assim, eles eram amigos, nem eram sequer bons amigos, eram mais conhecidos que outra coisa. E era isso que a deixava confusa e sem saber o que fazer. Ela sabia que por muito que recusasse, os pais é que decidem, portanto ela acabaria por casar na mesma, mas naquele momento não conseguiu lidar com o assunto, pura e simplesmente.

               

**

 

                Não havia um único barulho na floresta. Era noite cerrada, já a lua ia bem alto no céu negro. Os seus passos eram cautelosos, pisavam as folhas com cuidado. Anos e anos de evolução fizeram com que a sua passagem na bruma da floresta passasse despercebida. Tentavam manter-se fora do alcance de quem lhes pudesse fazer mal, por isso é que se deslocavam durante a noite. Era a melhor e única altura do dia em que podiam caminhar sem serem avistados pelos humanos. Eram criaturas estranhas e normalmente não os chateavam mas é melhor prevenir que remediar. Desciam calmamente o vale, numa fila organizada pela hierarquia estabelecida. Não procuravam comida, estavam simplesmente a mudar de sitio. O seu antigo esconderijo tinha sido descoberto pelos humanos e tinham morto alguns dos seus membros, infelizmente tinham sido os mais novos, que eram mais lentos e indefesos. Antes que voltassem para matar mais, decidiram mudar de sitio. O macho alfa sabia de um sitio perfeito. Ficava longe mas seria o lugar perfeito para se esconderem durante uns tempos. Ficava perto do rio, portanto haveria comida por perto, não teriam que se afastar muito para caçar.

                Ao chegar ao rio, o macho alfa parou. Ergueu o nariz no ar e assim fizeram todos os outros. Sentia um cheiro familiar, mas um cheiro que lhe transmitia cautela. Estava perto, o cheiro era forte. Decidiu investigar o que era. Desviou-se do caminho planeado e trotaram todos atrás do alfa. Chegaram perto de uma árvore grande, era um velho carvalho, que já permanecia ali há centenas de anos. O cheiro ali era bastante intenso e um dos membros mais novos começou a ficar nervoso, como resultado começou a rosnar baixinho e o pêlo no seu lombo elevou-se. O alfa deu-lhe imediatamente uma rosnadela, para ele se controlar. Não podiam ser descobertos. O casal alfa deu a volta ao tronco do velho carvalho e encontrou, encostado a uma raíz, um ser estranho. Trazia folhas e pedras por cima da sua pele, e tinha um longo manto negro que lhe cobria parte da cabeça e que caía sobre o resto do corpo. Parecia adormecido portanto decidiram aproximar-se mais um pouco. O estranho animal permaneceu quieto. O macho avançou primeiro. Aproximou-se o máximo possivel até perceber o que era: um humano.

                Imediatamente afastou-se a rosnar, com o pêlo no ar. O barulho acordou Sashi.De inicio não conseguiu identificar de onde vinha o barulho, mas depois dos seus olhos se ajustarem á falta de luz. Viu dois vultos negros á sua frente, um deles mais próximo que o outro. Um deles tinha a cauda no ar e as orelhas baixas, sinal claro que estava assustado. Outro indicio disso era o seu rosnar continuo. Era obvio que Sashi teria que ter bastante cuidado, apesar de ainda não ter entendido que animal era. Era demasiado pequeno para ser um urso mas demasiado grande para ser um coiote, até porque os coiotes, sobre ameaça, fogem. O corpo de Sashi pedia-lhe para mudar a sua posição corporal desesperadamente e, ivoluntariamente, obedeceu. O seu movimento provocou o caos. Foi tudo bastante rápido, apesar de ter parecido durar minutos.

                O animal que lhe rosnava investiu, Sashi como reação colocou os braços em frente da cara. Ouviu vários rosnares e latidos diferentes e de repente o silêncio foi restabelecido. Lentamente baixou os braços e viu vários outros vultos em seu redor mas todos quietos. O animal que a tinha tentado atacar estava no chão, com um segundo animal a segurá-lo. A luz da lua penetrava os espessos ramos das árvores até chegar ao solo, e no misto daquele luar, Sashi viu a pelagem vasta do animal que segurava o segundo. Tinha uma cor prateada, talvez mesmo branca. A sua longa cauda estava alta, num meio caracol e rosnava para o que estava no chão. Olhou para os restantes vultos que estavam em redor dela. Eram todos de tamanhos diferentes e cores, mas mesmo assim não conseguiu perceber o que era. Então o animal branco virou-se para trás, olhando Sashi nos olhos. Tinha um olhar meigo, um olhar cor de chocolate. Ficaram a olhar-se durante uns segundos, mas o animal virou costas e os outros partiram atrás dele.

                Abalada, mas a salvo, Sashi ficou a vê-los afastar-se. Aquele olhar era caracteristico de um único animal, mas que supostamente já não existia ali há muitos anos, segundo diziam as histórias. Sashi levantou-se. Precisava de voltar para casa.

 

                Chegou de madrugada, ainda havia o cheiro do orvalho no ar. Já se conseguia ver a luz do sol por detrás das montanhas, prestes a nascer. Não havia muita gente a pé áquela hora, mas como qualquer pai preocupado, Mehul estava fora da tenda, sentado num tronco cortado de uma árvore.

- Pai?

- Sashi!  Onde estiveste? – perguntou Mehul, levantando-se do tronco.

 

- Ahm…tive de arejar… - limitou-se a responder.

- Ficou toda a gente preocupada, principalmente a tua mãe. O que é que te deu? É uma honra Tuksui querer que tu cases com Karuk. Fugir daquela maneira demonstrou uma imensa falta de respeito e decoro. Humilhaste-me Sashi. – disse Mehul, com uma voz mais grave. Sashi baixou a cabeça, olhando para o chão. Sabia que o que tinha feito era errado e estava pronta para acatar com as consequências dos seus actos.

- Desculpa pai. Não voltará a acontecer. – respondeu.

- Ah não vai, não.

- Qual é o meu castigo? – perguntou, ainda sem encarar o pai. Mehul permaneceu em silêncio alguns minutos, ponderando que castigo seria digno de tal falta de respeito e humilhação.

- Terás que pedir desculpa ao Chefe Tuksui e à sua familia. Durante duas semanas não podes falar com ninguém a não ser comigo e com o resto da familia e terás que ajudar a tua mãe e avó em todas as tarefas.

- Mas isso são milhentas tarefas! – queixou-se.

- Tivesses pensado nisso antes de fugires. E irás casar com Karuk, depois de todo este…espectáculo…ter sido suavizado e perdoado.

- Sim pai.

- Agora vai para a tenda. A tua mãe deve estar a acordar e vai precisar de ti.

                Sashi assim fez. Estava á espera de um castigo pior, apesar de tudo. Durante duas semanas teria que fazer todas as tarefas que lhe eram pedidas e permanecer em silêncio na presença das outras pessoas, como demonstração de arrependimento pelo que fez. Decidiu não contar o que se tinha passado horas atrás, não tinha importância para a aldeia. Apenas tinha para Sashi. Ao fim de 20 anos sem serem avistados ou ouvidos, Sashi tinha estado na presença de uma matilha de nove lobos. E Sashi fará tudo para que nada lhes aconteça, mesmo que isso implique mentir aos seus pais.

publicado por Suky ♥ às 23:42
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